Pages Menu
Categories Menu

Posted on 20 Jan, 2014 in Notícias locais, Política e sociedade

“Os migrantes de Israel não são criminosos”, Padre David Neuhaus

“Os migrantes de Israel não são criminosos”, Padre David Neuhaus

ENTREVISTA – A 19 de Janeiro de 2014, a Igreja Católica celebrará o 100º dia mundial dos migrantes e refugiados. Na Terra Santa, na véspera, será celebrada uma missa em Jafa para os numerosos migrantes residentes em Israel, com a presença do Padre David Neuhaus, responsável, na diocese, pela pastoral dos migrantes. Desde o dia 5 de Janeiro, que milhares de africanos se manifestam em Tele Avive e Jerusalém contra a recusa das autoridades israelitas a reconhecer-lhes o estatuto de refugiados. O Padre Neuhaus reage.

1. Por que razão os migrantes africanos em Israel já se não calam?

Para compreender este movimento de manifestação, é necessário fazer o ponto da situação. Estima-se em 53 000 o número de africanos, vivendo actualmente em Israel e que pedem asilo; uma larga maioria vem da Eritreia e do Sudão. Os eritreus são maioritariamente ortodoxos e os sudaneses muçulmanos. Os que protestam reivindicam a sua presença em Israel na qualidade de refugiados e denunciam a recusa das autoridades em examinarem equitativamente os seus pedidos a título individual (via entrevistas personalizadas). Hoje, quando os migrantes chegam a Israel, passando pelo Sinai e pela fronteira egípcia, o Estado confere-lhes uma protecção de grupo não se iniciando qualquer processo individualizado para compreender a situação de cada um. São assim tratados como massas humanas sem qualquer e, sem o estatuto de refugiados, não têm qualquer direito social (trabalho, saúde…). Para simples informação, nenhum dos que pedem asilo vindos da Eritreia conseguiu obter esse estatuto, enquanto 60 a 70% dos que pedem asilo, originários do mesmo país, mas tendo migrado para a Europa conseguiram-no.

Os manifestantes acusam também Israel de os encorajar a voltarem para os seus países (onde a guerra e a fome tudo devastam). Israel procede de diferentes formas tornando-lhes a vida impossível, dando-lhes dinheiro para deixarem o país, ou colocando-os em prisões ou em campos. Um campo foi aliás construído no Sul de Israel para este fim: os seus ocupantes podem entrar e sair durante o dia, mas tem de picar o ponto por três vezes e neles passar, obrigatoriamente, a noite. Todos estes procedimentos vão contra os acordos internacionais assinados por Israel. Enfim, Israel pode, em qualquer momento, dar por terminados os problemas nos países de origens dos migrantes. Por exemplo, quando da declaração de independência do Sudão-Sul, em Julho de 2011, milhares de sudaneses foram reenviados para o país (enquanto os Estados-unidos tinham decidido esperar para tomarem essa decisão, atentos aos desenvolvimentos políticos da nova situação). Desde então, muitos sudaneses reenviados de Israel morreram com malária ou na guerra civil. Recentemente, no dia 14 de Janeiro, mais de 200 civis, fugindo dos combates que recomeçaram em Malakal, morreram afogados no naufrágio de um barco que estava sobrelotado.

2. O que justifica, por parte de Israel, tal política?

Principalmente por que os que pedem asilo vivem nos bairros mais pobres. Alguns encontraram trabalho. Eles representam uma mão-de-obra barata e sem direitos sociais. Contribuem para a economia israelita e tem uma boa reputação nos sectores da construção civil, da hotelaria e restauração.

O Problema é um facto populista. Os que pedem asilo vivem nos bairros mais pobres das cidades. Por exemplo, a população judia, do sul de Tele Avive, muito pobre, está rodeada pelos que pedem asilo e que vivem de uma forma totalmente precária (muitas pessoas vivem numa só divisão, há barulhos e cheiros de uma outra cultura e também uma criminalidade crescente). Daí a organização de manifestações locais de israelitas contra os africanos nestes últimos meses. Assim uma forte pressão popular leva o governo a expulsar esta população que poderia pôr assim em causa, segundo eles, a identidade do país. Há todo um vocabulário que estigmatiza estes homens e estas mulheres que fogem de regimes autoritários, de situações miseráveis qualificando-os de “infiltrados”. Os migrantes em Israel não dão criminosos. Pedem apenas o estatuto de refugiados.

3. Apoia esta contestação?

Em primeiro lugar, nesta população que procura asilo (eritreus, etíopes e sudaneses), é preciso não nos esquecermos de que há católicos. Estas pessoas devem continuar a viver a sua fé e nós temos obrigação de os acompanhar. A título de exemplo, um pouco menos de 10% da população eritreia é católica (do rito ge’ez). Para servir esta população, temos um novo padre da diocese de Adigrat na Etiópia (o Padre Medhin) que pode celebrar missas nesse rito em Jafa, Tele Avive e Eliat. Trabalhamos também com jovens eritreus bem formados, alguns dos quais antigos seminaristas.

Em segundo lugar, enquanto Igreja devemos estar a par da situação global de todos os que procuram asilo em Israel para os podermos apoiar. Por decisão própria, a Igreja não discute directamente com os políticos mas trabalha em concertação com ONG israelitas dedicadas a estas populações. Para o fazer devemos:

coligir uma documentação fidedigna da experiência vivida pelos que procuram asilo (traumatismos vividos no caminho, raptos, prisão etc…);

conhecer os seus direitos (guarda dos filhos, admissão em hospitais…);

apoiar as instituições que procuram consciencializar a sociedade israelita;

facultar ajuda material e psicológica.

Neste trabalho em conjunto, temos a sorte de ter connosco a Irmã Azezet Kidane, uma irmã camboniana, que é para a Igreja uma verdadeira intérprete do mundo da migração.

4. O que faz a comunidade internacional?

O maior problema é que o fenómeno da migração é aqui internacional e que a comunidade internacional deve, ela também, mudar. Muitos países devem corrigir já as suas atitudes.

O Papa Francisco manifestou claramente que o mundo da migração tem um lugar especial no seu coração. Muito preocupado com o que se passa com os migrantes, o Papa na sua mensagem na “Jornada mundial dos migrantes e refugiados” pede que todos reajam: Uma mudança de atitude para com os migrantes e os refugiados é necessária da parte de todos…”.

A nossa Igreja da Terra Santa está já num mundo ameaçado, lutando para sobreviver numa região não muito amigável. Mas somos todos irmãos e irmãs na nossa pobreza. E a nossa Igreja da Terra Santa, já pobre e fraca é chamada a sair dela própria. Não é simples uma vez que não é uma Igreja rica: é uma Igreja pobre que vai ao encontro dos ainda mais pobres.

Entrevista conduzida por Cristophe Lafontaine.