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Posted on 4 Jun, 2014 in História, Ordem do Santo Sepulcro

Laços de Portugal à Terra Santa

Laços de Portugal à Terra Santa

R_merin_schreibendNota histórica

A ligação de Portugal à Terra Santa remonta aos primórdios da formação do Condado Portucalense, em 1095, posteriormente transformado no Reino independente de Portugal.

São inúmeros os factos que atestam a importância desta ligação, começando, desde logo, pelo símbolo nacional corporizado na primeira bandeira de Portugal, usada nas batalhas para a sua formação conduzidas por D. Afonso Henriques, representada por um escudo branco com uma cruz azul, justamente a mesma cruz que figurava no estandarte de seu Pai, o Conde D. Henrique de Borgonha, que o envergara, em 1103, na Terra Santa.écusson portugal

A própria conquista de Lisboa, em 1147, e as de Alvor e de Silves, em 1189, resultaram de acções militares relacionadas com a Terra Santa, pois só foram possíveis graças ao apoio dos expedicionários da segunda e da terceira cruzada do Oriente.

Mas as raízes dos laços com a Terra Santa têm, verdadeiramente, a sua origem, no espaço que antes da fundação da sua nacionalidade veio a integrar o território português, como comprova o relato de Egéria, no seu Itinerário de Braga aos Lugares Santos do Próximo Oriente, nos longínquos anos de 381 a 384, já para não referir outros tantos eloquentes exemplos, durante este período, como, no século V, o do presbítero bracarense Avito, que passou a residir em Jerusalém e se correspondia com S. Jerónimo, ou o do seu compatriota Paulo Orósio que, a caminho de Jerusalém, viveu dois anos junto de Santo Agostinho, e mais tarde também junto de S. Jerónimo, tendo sido convocado pelo Bispo João, de Jerusalém, para o Sínodo reunido nessa cidade Santa para discutir sobre as doutrinas pelagianas.

No âmbito dos contactos religiosos e culturais entre as futuras regiões do Norte de Portugal e a Terra Santa, relembre-se a interessante Crónica da sua Peregrinação aos Santos Lugares de Idácio, Bispo de Chaves e o exemplo de S. Martinho de Dume e Braga, que replicou em Dume e dali para todo o Noroeste peninsular o modelo de monacato que observou na Palestina, não esquecendo, ainda, a peregrinação entre Julho de 1104 e Maio de 1108, de D. Maurício Burdino, Bispo de Coimbra e, posteriormente, a do seu sucessor, D. Gonçalo, que a caminho de Jerusalém trouxe, de Roma e Constantinopla, relíquias de São Pedro e S. Paulo.

De entre gente anónima e notável que se dirigiu de Portugal para a Terra Santa, merece referência especial São Teotónio, nascido em Valença do Minho, em 1082, depois de ordenado sacerdote, foi nomeado prior da Igreja da Sé de Viseu. Fez duas peregrinações à Terra Santa, tendo aí estabelecido profunda relação de amizade com os Cónegos Regulares do Santo Sepulcro e que, no regresso da segunda peregrinação, fundou o Mosteiro da Santa Cruz em Coimbra.

Muitos outros exemplos se poderiam referir sobre esta matéria, como a presença em Jerusalém do Mestre de Avis, no século XIV, a do Infante das Sete Partidas, D. Pedro, em 1418, ou a de alguns franciscanos portugueses que chegaram a ser guardiães do Santo Sepulcro, em Jerusalém, como foi o caso de Frei António de Monsanto e Frei Fernando Ribeiro, lembrando, também, Frei Pantaleão de Aveiro que, no século XVI, escreveu, em estilo quase jornalístico, o “Itinerário da Terra Santa e suas particularidades”.

Para além das frequentes peregrinações que, com maior ou menor dificuldade, os portugueses, ao longo do tempo, sempre fizeram à Terra Santa, registe-se, entre as marcas da sua presença em Portugal, a importância das relíquias de lá recolhidas que constituíram um alimento para o aprofundamento da Fé mas também da memória viva em Portugal daquela região. São inúmeras as situações documentadas como o “Lenho da Santa Cruz” doado, a 19 de Março de 1099 à Sé de Coimbra ou a da Cruz de ouro ornada com pedras do Santo Sepulcro e do Monte Calvário oferecida à mesma Sé, segundo informação de 1180 e que consta do Livro Preto do Cartulário da Sé de Coimbra. Mas também a presença activa no país de Ordens Militares com origem na Terra Santa, como a dos Templários, de S. João do Hospital de Jerusalém e a Ordem do Santo Sepulcro, mantiveram bem viva entre nós, durante séculos, a ligação àqueles territórios do Próximo Oriente.

autel Vierge 2Concluindo, refira-se que Portugal está, também, simbolicamente presente na Terra Santa. Na verdade, para além do raro privilégio de existir, na Basílica do Santo Sepulcro junto ao Calvário, um altar com a imagem de Nossa Senhora das Dores, oferecido, em 1778, pela Rainha Dona Maria I, muitas outras peças, actualmente de incalculável valor, foram doadas, no Século XVIII, pelo Rei Dom João V a vários Santuários da Terra Santa, numa acção mista de diplomacia e fé, cuja quantia foi estimada em cerca de 200 mil cruzados, importância avultadíssima para a época. A exposição realizada em Versalhes, no ano passado, sobre o “Tesouro do Santo Sepulcro – Presentes das Cortes Reais europeias a Jerusalém” teve como uma das peças de maior notoriedade, justamente, um lampadário em ouro maciço oferecido por este Monarca.

Também no Santuário da Anunciação, em Nazaré, Portugal figura com grande destaque, através de um grande painel em azulejos, no interior da Basílica, representando Nossa Senhora de Fátima, e outro, no exterior, também em azulejaria portuguesa, oferecido, em 2012, pela Lugar-Tenência de Portugal da OCSSJ, representando Nossa Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal. No interior das instalações do Patriarcado Latino de Jerusalém, figura um retrato, de pintor anónimo, representando o Santo Condestável, D. Nuno Álvares Pereira, oferecido pela mesma Lugar-Tenência, em 2010, por generosidade de SS.AA.RR. os Duques de Bragança, mandado ali colocar por Sua Beatitude Mons. Fouad Twal.

Em 2014, em viagem a Portugal por ocasião das celebrações de 13 de Maio no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, que presidiu, o Patriarca Latino de Jerusalém, Mons. Fouad Twal, foi recebido por uma multidão fervorosa de mais de 300 000 fiéis. Foi, também, condecorado, pelo Presidente da República portuguesa, com a Grã-Cruz da Ordem de Mérito.

A presença de Portugal nos caminhos da Terra Santa continua a fazer-se sentir através de milhares de portugueses que, anualmente, para lá peregrinam seguindo o exemplo dos seus antepassados que de Braga, mesmo antes da formação de Portugal, se constituíram como os primeiros a fazê-lo do extremo ocidental da Europa.

 

Lugar-Tenência de Portugal – OCSSJ

Maio 2014