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Posted on 13 Jan, 2015 in História, Para ir mais longe, Publicações

O Statu quo (segunda parte)

O Statu quo (segunda parte)

53347_francois-bartholomee-saint-sepulcre-300x175JERUSALÉM – Encontro com o Padre Stéphane Milovich, guardião do Convento de São Salvador de Jerusalém, que nos explica as implicações do statu quo no quotidiano das comunidades que partilham a Basílica, mas também nos fiéis cristãos locais ou em peregrinação.  

Como se lembra, no precedente artigo, o Statu quo é uma regra não escrita, que advém dos usos das comunidades que partilham o Santo Sepulcro. Estas comunidades vivem juntas na Igreja: dez irmãos franciscanos no convento, os Gregos e os arménios em células e os Etíopes nos sótãos. O Padre Stéphane, guardião do Convento de São Salvador, explica que “ tal facto pode parecer, à primeira vista, desagradável, mas é algo de maravilhoso pois todas as igrejas estão reunidas à volta do Túmulo Vazio, à volta da mesma Ressurreição, da mesma fé. O statu quo é viver em conjunto enquanto, por vezes, é muito mais cómodo estar sozinho em sua casa. Mas o statu quo faz-nos sair da nossa zona de conforto e obriga-nos a viver com o outro”

O Ocidental no Oriente não pode impor um relacionamento ocidental. A Igreja latina é a única ocidental. O que pode chocar um peregrino a quem por vezes é difícil compreender que o Santo Sepulcro não é uma catedral como em França ou Itália. É a Catedral de todas as Igrejas de Jerusalém. “Quando um peregrino fica encantado com o souk, continua o Padre Stéphane, ele gosta do ambiente que aí reina com casas de judeus israelitas por cima das lojas dos comerciantes muçulmanos isto simboliza, para ele, o Oriente. O Santo Sepulcro é a imagem do bairro que o cerca: um alegre bazar”. O peregrino português pode ter por vezes a presunção inconsciente de estar no seu país quando entra no Santo Sepulcro. “Esquece-se, por vezes que a Igreja se difundiu e se inspirou no terreno cultural em que ela se enraizou. Ora esta Igreja de Jerusalém que é o pulmão destas igrejas, que todas nascem de Jerusalém e geram a Igreja”

Há seis Igrejas no Santo Sepulcro: duas africanas (as igrejas copta e etíope), duas europeias (as latina e grega ortodoxa) e duas igrejas asiáticas (as dos arménios e dos siríacos). “Cada continente está geograficamente representado à volta de Jerusalém. O Santo Sepulcro é Jerusalém no centro do mundo. O umbigo do mundo é o Santo Sepulcro, logo Jerusalém. É daí que tudo parte e é aí que todas as comunidades voltam, atraídas como por um imame”.

Seis Igrejas vivem juntas, fala-se portanto aí seis línguas diferentes. Isto significa que é preciso comunicar com o outro numa língua que não é a sua língua materna. Pode, por vezes, ser difícil se compreender e há, de vez em quando, mal-entendidos. No entanto, durante oito séculos, diferentes comunidades viveram juntas em redor do Túmulo, (as portas estavam fechadas e só se abriam para deixar entrar um peregrino que tivesse pago uma taxa, as comunidades viviam aí encerradas). Descobre-se então, para além das diferenças culturais, um irmão que partilha a mesma fé. A grande diferença é cultural não teológica. “ se eu encontrar um grego ortodoxo em Portugal ele estará vestido da mesma maneira que eu no meu país e falará com certeza a mesma língua do que eu. Aqui, o meu irmão cristão está mais em sua casa, se me permitirem a expressão, Eu aprendo a amá-lo tal como ele é” precisa o Padre Stéphane. A perda de referências, que o pequeno espaço onde se cruzam tantas pessoas, induz em confusão. O Padre Stéphane esclarece-nos: “O grupo de peregrinos toma, de repente, consciência que ele não está com a sua Igreja, no centro do mundo. O peregrino é bombardeado com diferentes manifestações de fé. Ele é, de repente e humildemente um entre tantos outros”.

O Santo Sepulcro é um lugar de ecumenismo quotidiano desde há séculos. As comunidades que todos os dias giram à volta do Santo Sepulcro são como satélites que gravitam à volta do mesmo astro: o sol da Ressurreição.

Eva Maurer Morio