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Posted on 17 Apr, 2015 in Para ir mais longe, Política e sociedade

O Massacre dos Arménios; “intenção de genocídio” por parte da Turquia

O Massacre dos Arménios; “intenção de genocídio” por parte da Turquia

ANÁLISE – Cem anos depois da morte de cerca de 1 milhão e meio de arménios – sem ter em conta outras minorias que tiveram o mesmo destino – e o assunto resume-se ainda a um debate para a Turquia. O próprio Papa Francisco não hesitou em utilizar um termo do Direito Internacional “genocídio” para designar este massacre, apesar da reacção da Turquia numa entrevista ao “Vatican Insider”. Aram I, o Catholicos da Igreja apostólica arménia da Cilícia, que vive no Líbano, faz-nos uma análise que traduz claramente a sua posição pacífica, mas lúcida.

“A reacção da Turquia às palavras do Papa Francisco sobre o genocídio arménio mostra a tentativa turca de apagar um massacre planificado do qual há provas documentais concludentes”, explica o Catholicos Arménio face à reacção hostil da Turquia às palavras do Papa Francisco.

Segundo o Catholicos e universitário arménio existem “provas suficientes” que mostram que o “primeiro genocídio do séc. XX”, segundo a expressão de João Paulo II, retomada no passado domingo pelo Papa Francisco, foi um facto real. Estas provas, continua o Bispo, são “provas históricas, documentos, testemunhas oculares, relatórios pessoais de diplomatas de então, historiadores que, na sua maioria, não são arménios. Escreveram, discutiram, publicaram e exprimiram-se publicamente relativamente a este trágico acontecimento e todos falam de “genocídio”.  

Segundo os turcos, o termo genocídio não pode ser utilizado para designar o massacre de que foram vítimas os arménios porque este termo de Direito Internacional só apareceu em 1948. O Catholicos, consciente deste argumento, diz, no entanto “ De acordo, compreendo, é de 1948. Mas não é a palavra que é importante, é a intenção que é importante e a intenção da Turquia era a de um genocídio. A intenção era exterminar, apagar da história e do mapa o nome Arménio e Arménia (…), há provas que indicam claramente que o que se passou com o pavo arménio foi um genocídio no sentido jurídico do termo”

O Catholicos também não acredita no argumento turco segundo o qual as palavras do Papa Francisco alimentariam as tensões entre o Islão e a Cristandade. “…. eles colocam deliberadamente as coisas num contexto pernicioso, discutível e perigoso”. E explica, “vou-vos dizer porquê. O que se passou com os Arménios, o genocídio, não foi por os arménios serem cristãos, mas tem a ver com a política e ideologia pan-turca [1], a ideologia e os planos dos Jovens Turcos. Os arménios eram um enorme obstáculo para a realização da sua política pan-truca. Queriam juntar todas as nações e países de origem turca e com uma cultura comum sob o mesmo chapéu pan-turco. E os arménios representavam um obstáculo. E assim, por esta razão, organizaram este crime, este genocídio. A religião não era portanto um factor. Hoje utilizam a religião para tocar na sensibilidade entre cristianismo e islão. E isto não é aceitável”. 

A tragédia dos cristãos do Médio Oriente e a preocupação na unidade visível da Igreja

O Catholicos Arménio terminou a entrevista falando do trágico destino de muitos cristãos no Médio-Oriente, do papel que os cristãos do Ocidente podem ter na protecção do pouco que resta e do movimento ecuménico que tão importante é para ele. “Como Igreja Arménia, nós temos sido, desde a criação da Igreja, uma Igreja de espírito aberto, uma Igreja flexível. Somo uma Igreja que acredita verdadeiramente no Ecumenismo e na unidade visível da Igreja (…) discuti com ele (o Papa) e disse-lhe –  que por inúmeras razões, as nossas Igrejas, todas as Igrejas e particularmente as Igrejas católicas e ortodoxas eram muito institucionalizadas. A instituição manteve a Igreja e congelou as fronteiras. Disse-lhe; a Igreja é essencialmente a comunidade de Fé, e é extremamente importante irmos ao encontro da Igreja para lá dos seus muros”.

Tradução de um resumo de Firas Abedrabbo

[1] – O pan-turquismo é uma ideologia nacionalista nascida no séc. XIX que visava reforçar os laços dos povos turcófonos, chegando mesmo a suscitar a sua união num mesmo Estado. Este conceito foi popularizado por certas correntes de Jovens Turcos, particularmente por Enver Pacha.