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Posted on 13 Jan, 2016 in Diocese, Notícias locais, Paróquias na Jordânia, Política e sociedade, Slide

O Centro Nossa Senhora da Paz e o acolhimento dos refugiados na Jordânia.

O Centro Nossa Senhora da Paz e o acolhimento dos refugiados na Jordânia.

 

JORDÂNIA – A Coordenação Terra Santa está actualmente na Jordânia, última etapa da visita pastoral na região, depois de Gaza e Belém. A delegação de bispos europeus, norte-americanos e sul-africanos quis ir junto dos muitos sírios e iraquianos que encontraram refúgio no país para lhes deixarem uma mensagem de solidariedade e misericórdia.

De acordo com os números da Nações Unidas, os refugiados seriam cerca de 600 000 na Jordânia; de acordo com as autoridades jordanas o número atingiria 1,4 milhões, ou seja, 20% da população total ou na razão de um para cinco habitantes. Cerca de 20% dos refugiados sírios vive nos campos de Azraq e Zaatari (situados no norte do país) enquanto a maioria se encontra nas cidades.

Os refugiados iraquianos chegaram em Agosto de 2014, fugindo do fulgurante avanço do Daech na planície de Ninive. O seu acolhimento é assegurado pela Caritas e outras organizações católicas entre as quais se conta o Centro Nossa Senhora da Paz, em Amã. O seu director-geral, Padre Ala Nadim Alamat, faz-nos o ponto da situação destes refugiados.

Estes refugiados iraquianos estiveram alojados nas salas de hospitais e escolas pertencentes à igreja, antes de serem colocados em caravanas durante algum tempo. Muitas destas famílias vivem hoje em apartamentos e beneficiam de um apoio da Caritas para alimentação e alojamento; esta ajuda é no entanto insuficiente e não permite cobrir todas as despesas. As crianças vão à escola e os pais tentam encontrar trabalho em igrejas ou em centros. Esta é para eles a única oportunidade uma vez que o governo não lhes dá a carta de trabalho e a multa por “exercício de actividade remunerada sem autorização” pode atingir os atingir os 2 000 ou 3 000 dinares jordanos, além da expulsão do território.

Na sua maioria, os iraquianos não foram registados como refugiados junto da UNHCR, por as reuniões serem muitas vezes adiadas. Assim oficialmente eles são considerados como sendo simples sem-abrigo não estando por isso na topo das prioridades da UNHCR. Razão pela qual muitas famílias tentam arranjar ajudas nos meios eclesiásticos do Canadá ou da Austrália.

 

O período do inverno é sempre um momento delicado para os refugiados. Como o consegue gerir?

Os refugiados iraquianos, graças à colaboração do centro N. Sra. da Paz, foram instalados, durante o Inverno, em apartamentos. Embora seja demasiado caro aquecer os seus apartamentos, têm pelo menos um tecto para se protegeram das intempéries. Por outro lado, os refugiados que estão em campos tem maior dificuldade em se protegerem do frio e em encontrarem um local seco, principalmente durante as trovoadas e as tempestades. No inverno passado muitas tendas foram abaixo com o peso da neve e uma ajuda urgente (roupa, combustível) foi necessária.

 

Os meios de que dispõe são suficientes?

A Caritas Jordânia assegura o fornecimento de comida, faculta abrigos e cuidados médicos aos refugiados iraquianos. No entanto, a nossa organização está sempre à procura de fundos que lhe permitam continuar a sua acção. A Caritas, com a ajuda de pessoas de boa vontade, organiza regularmente colectas de fundos. O alojamento talvez seja a maior preocupação. Neste momento a Caritas tem capacidade para cobrir a despesa de renda de uma família durante seis meses, a partir daí é necessário encontrar uma outra solução.

No que respeita à ajuda dada pela UNHCR aos sírios, ela é inferior ao mínimo necessário para assegurar uma ajuda de base a cada sírio. Muitos refugiados contraem dívidas para poderem dar um tecto e alimentar as suas famílias.

 

Parece que alguns sírios teriam o desejo de voltar para a Síria por causa, nomeadamente, das difíceis condições de vida que têm na Jordânia…

Não tenho informação sobre refugiados que voltem para a Síria, mas conheço famílias que gostariam de regressar ao Iraque, nomeadamente ao Curdistão. As famílias que não estão ainda instaladas pedem muitas vezes informações sobre as condições de vida no Curdistão e estariam inclinadas a regressar caso a situação se mostre melhor do que na Jordânia. Acontece o mesmo com os sírios, mas a situação da Síria é ainda pior do que a do Curdistão… é preciso notar que os que regressam ao Iraque não voltam para as suas casas em Mossul ou nas aldeias dos arredores que continuam nas mãos do Daech.

 

Qual é o estado de espírito dos refugiados que encontra?

A instalação em apartamentos dá esperança às famílias que pensam poder viver um inverno tranquilo. Algumas famílias podem-se sentir felizes por poderem integrar os programas de ajuda da Igreja da Austrália – preferível às mediações da ONU. O facto que os seus filhos tenham podido voltar à escola é salutar, principalmente depois de um ano de interrupção.

No entanto as famílias vivem numa angústia constante pois temem ser deportadas. Têm necessidade de trabalhar na Jordânia para sustentarem as suas famílias, mas trabalhar pode ser sinónimo de multas e de deportações como já referimos. Mesmo quando o dinheiro não é uma necessidade absoluta, muitos refugiados, principalmente os homens, desejam voltar a trabalhar pois é muito difícil esperar sem nada fazer.

Gostaria de chamar a atenção para o facto de que os muçulmanos e os cristãos da Jordânia imediatamente acorrem para ajudar os refugiados iraquianos que fogem da barbárie e dos ataques do Daech. Os cristãos da Jordânia encontram os cristãos do Iraque que perderam tudo menos a sua fé em Jesus. Agradecemos ao Senhor por este magnífico testemunho.

Temos orgulho da Jordânia que sempre foi capaz de acolher refugiados no seu território. A hospitalidade custa caro, mas a Jordânia continua aberta ao acolhimento. No entanto temos, hoje, uma verdadeira necessidade de ajuda internacional, aqui e agora.

Entrevista conduzida por Manuella Affejee.