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Posted on 30 Mar, 2016 in Homilias FT, Patriarca, Slide

Quinta-Feira Santa : homilia do Patriarca

Quinta-Feira Santa : homilia do Patriarca

 

JERUSALEM – No dia 24 de Março de 2016, o Patriarca Latino, Mons. Fouad Twal, celebrou de manhã a missa da Ceia do Senhor, no Santo Sepulcro, acompanhado pelo seu presbitério e por numerosos religiosos, fiéis e Peregrinos. Junto pode ler o texto integral da sua homilia.

Os Sacramentos da Reconciliação, do Sacerdócio e da Eucaristia manifestações da misericórdia de Deus

Excelências e caros amigos,
Caros irmãos e irmãs,
Caros peregrinos vindos do mundo inteiro.

Hoje, a Igreja convida-nos a lembrar o Mistério da Eucaristia, da Instituição do Sacerdócio, a comemorar a presença de Cristo entre nós e a cumprir o seu desejo de servir os nossos irmãos.

Os Sacramentos da Reconciliação, a Eucaristia, o Sacerdócio: estes três pilares da nossa fé cristã têm fundamento numa e única verdade, o Amor sem limites do nosso Deus que nos quer salvar e que através destes três sacramentos “não nos deixa órfãos” (João 14, 18) e que “fica connosco até ao fim dos tempos” (Mateus 28, 20).

Estes três sacramentos são Sinais da Misericórdia de Deus “acto último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro” [1]. “São sinais vivos de um Deus que não de cansa de esperar por nós, de nos procurar, de se vir até nós”.

I – O Sacramento da Reconciliação: deixar que lhe lavem os pés e tornar-se por sua vez num instrumento de Misericórdia.

O lava-pés exprime a misericórdia de Cristo no que ela tem de mais concreto, quando Deus se curva e se põe aos nossos pés para se juntar a nós, aí mesmo onde o pecado nos fez cair, para nos lavar e nos curar.

O Próprio Deus se curva: é um gesto cheio de significado que Pedro não compreende e que nós mesmos temos dificuldade em compreender de tal forma ele ultrapassa o nosso entendimento. O mestre faz-se servo.

Entendeis o que acabo de vos fazer”? Pergunta Jesus (João 13, 12) e, sem esperar uma resposta Ele mesmo esclarece o sentido do seu gesto. “Se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também deveis lavar os pés uns dos outros. É um exemplo que vos dei para que, como eu o fiz, o façais também” (João 13, 14,15)

Poe este gesto contra todo o protocolo, Jesus torna percetível a Infinita Misericórdia de Deus, a dimensão de um amor que não conhece nenhum limite nem tem medo de se debruçar sobre a mais ímpia das negritudes. Se Deus se dá ao trabalho de nos lavar os pés o que fará para nos lavar o coração!

Irmãos e irmãs, neste Ano da Misericórdia, deixemos que, por fim, Cristo se junte a nós e aproximemo-nos sem medo do Sacramento da Reconciliação, Deus bate à porta do nosso coração (Ap 3, 20). Recebamos o perdão do Senhor para avançarmos no Caminho da Santidade e nos tornarmos, por nossa vez, instrumentos desta misericórdia, “sinais eficazes da acção do Pai [III]. “Como eu o fiz também vós o façais”. (João 13, 15).

– Lavar os pés dos nossos irmãos é um gesto difícil que incarna todas as obras de misericórdia que nos custa fazer.

– Lavar os pés é aceitar curvar-se, humilhar-se, inclinar-se sobre os nossos irmãos que sofrem, que estão em dificuldades, isolados, exilados, em necessidade.

– Lavar os pés é renunciar por um instante a olhar para si para olhar o outro que tem uma desesperada necessidade de mim.

Irmãos e irmãs, viver e partilhar o amor de Deus não é uma história cor-de-rosa. O verdadeiro amor é difícil, não há amor sem sacrifício, sem o dom de si. “Porque o amor é forte como a morte: s suas brasas são brasas de fogo com grandes labaredas “ (Ct 8,9).Viver o amor verdadeiro implica que consentirmos que Deus queime os nossos ramos daninhos (João 15, 2-6) o nosso “velho homem” cheio de misérias e mesquinhezes. (Ef. 4, 22).

Vamos agora lavar os pés de alguns seminaristas para afirmarmos de novo o nosso desejo de seguir a humildade do Mestre e o Seu Ensinamento. Tiramos algumas fotografias e pensamos ter cumprido o mandamento do amor…Repetimos este gesto uma vez por ano, mas estamos ainda tão longe de uma fidelidade absoluta ao Seu ensinamento de serviço, de misericórdia e de perdão para com os outros…Pensemos nas centenas de milhares de pobres, de doentes, de refugiados que esperam um gesto concreto de solidariedade, que esperam uma política justa e sã, que esperam ser acolhidos e aceites.

Cristo curvou-se sobre nós para nos lavar, ele deu-nos a sua Misericórdia, então sejamos misericordiosos e perdoemos “setenta e sete vezes sete”. (Mt 18, 22). Tenhamos compaixão, rezemos, e pratiquemos actos concretos de compaixão para com os nossos irmãos.

II – A Eucaristia

O segundo pilar da nossa Fé que gostaria de evocar nesta missa Crismal é a Eucaristia. Este gesto sublime, que vale por si mesmo, não pode ser dissociado do primeiro gesto: o lava-pés. É um gesto de amor infinito, de humildade e de Misericórdia. No momento deste sacrifício que nós repetimos em todas as missas “até que Ele venha” (1 Cor. 11, 26), Jesus Cristo, Nosso Senhor, faz-se tão pequeno, tão humilde neste pão para poder permanecer o meio de nós. A Eucaristia, como o Sacramento da Reconciliação é sinal de um amor desmedido de Deus, que está acima de tudo, mas que gosta de ficar connosco. Mais uma vez o seu amor ultrapassa os limites do nosso entendimento e somente os olhos do coração, iluminados pela fé o podem aceitar.

Irmãos e irmãs, caros padres como este mistério é grande! Foi a alguns metros daqui, no monte Gólgota, que o Santo Corpo de Jesus foi imolado e que o seu Sangue foi derramado pela remissão dos nossos pecados e é sempre este mesmo corpo e este mesmo Sangue que nós recebemos na Eucaristia. Estamos presentes neste momento único e eterno neste, o mesmo lugar em que Cristo deu a sua vida em sacrifício por nós. Que privilégio e que responsabilidade.

Em cada hóstia consagrada, Deus dá-se e pede-nos que nos demos, por nossa vez, aos nossos irmãos. Toda a nossa vida deve ser “uma oferta agradável a Deus” (Filipenses 4, 18). No fim de cada missa, o Senhor convida-nos a que passemos à mesa da celebração litúrgica, à mesa do serviço, nos nossos bairros das nossas paróquias e nos campos de refugiados hoje disseminados um pouco por todo o lado.

Irmãs e irmãs, “no crepúsculo das nossas vidas, seremos não seremos julgados senão pelo amor”. Aproveitemos a ocasião deste Jubileu da Misericórdia “momento extraordinário de graça e de renovação espiritual” [III] para cessarmos enfim de nos preocuparmos com nós-mesmos. Viremo-nos uns para os outros, “é tempo de nos virarmos para o que é essencial e nos preocuparmos com as dificuldades dos nossos irmãos” [IV] diz-nos o Santo Padre. No esteira do nosso Mestre, somos chamados, nós padres e servidores de Deus, nós fiéis a aceitarmos, por nossa vez, a deixarmo-nos ser alimento para os nossos irmãos, de nos darmos até às últimas consequências ao exercício, por vezes difícil, da Misericórdia. Se as nossas boas obras nos são penosas é sinal de que são frutuosas. É sinal de que nos demos verdadeiramente.

III – O Sacerdócio

Fazei isto em memória de mim” (Lc. 22, 19). Caros Padres e caros consagrados, Boas Festas, é o vosso dia, a vossa festa! Nós pensamos e rezamos todos os dias por todos os nossos padres e religiosos da Terra Santa.

Caros padres, não esquecei nunca o quanto a vossa vocação é divina. A vossa vocação é a de encarnar a Misericórdia de um Deus que é um Pai amantíssimo, um Deus que se não cansa de procurar as suas ovelhas perdidas, os seus filhos pecadores extraviados.

Pelo sacerdócio, vós fostes investidos servidores de Deus e dos nossos irmãos. Fostes chamados, no seguimento de Cristo, a alimentar a multidão esfomeada dos filhos de Deus não só com pão, mas também com o “Pão da Vida” (João 6, 35) Sois chamados, como Cristo, a curar a tratar não só as feridas físicas e materiais, mas também as da alma pelo Sacramento da Reconciliação. Toda a vossa vida deve incarnar, dizer e tornar a dizer incessantemente da Misericórdia de Deus.

Instituindo-nos padres, Cristo quis pôr nas nossas mãos toda a autoridade, e deu-nos ordem de refazer estes gestos, de repetir este único sacrifício de oferta. Hoje, Cristo renova-nos na nossa vocação e diz-nos de novo: dou-vos todo o poder a vós padres, tais como sois com os vossos limites, as vossas fraquezas, as vossas fragilidades, dou-vos este poder; o de me substituir, de agir em meu nome, de perdoar os pecados de condenar ou de salvar!

Que responsabilidade, Senhor, a que Tu nos dás o a possibilidade de podermos repetir estes belos gestos, lava então não só os nossos pés, mas também as nossas cabeças confusas, os nossos espíritos manchados e os nossos corações empedernidos!

Conclusão.

Estes três gestos de Misericórdia, o Lava-pés, a Consagração do Pão e do Vinho, a instituição do Sacerdócio só se podem materializar numa assembleia, num povo de crentes, jovens e menos jovens, que ousa caminhar em contra-corrente, um povo que acredita na Justiça e na Ressurreição, um povo que acredita Naquele em que pusemos toda a nossa confiança. Porque a vocação de todos nós, que fomos feitos à imagem do nosso Deus Trinitário que é Comunhão de Amor entre Três Pessoas, a nossa vocação é o dom de si e a comunhão fraterna de uns com os outros.

É aqui que se insere o nosso ministério sacerdotal: Deus precisa de pessoas que sejam sinais credíveis para servir, apoiar e alimentar os fiéis…

É aqui que se insere a nossa vocação de cristãos: tornarmo-nos sinais vivos de Misericórdia.

O ano da Misericórdia é o ano da conversão e da santificação, é o ano do serviço…servir, aceitar curvar-se para servir, alimentar, curar, tratar os nossos irmãos: este deve ser o nosso programa de vida.

“Vivei o que fazeis” disse-nos o nosso bispo no momento da nossa ordenação. Esta frase é mais válida e actual do que nunca.

Caros padres, religiosos e consagrados, aproveitemos esta celebração para darmos graças por termos sido escolhidos para esta missão, e rezemos, juntamente com os fiéis por todos aqueles nossos irmãos que exercem o seu ministério em zonas de guerra e de morte!

+Ámen

Fotos : Thomas Charrière & Andres Bergamini

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