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Posted on 22 Apr, 2016 in Notícias locais, Patriarca, Política e sociedade, Slide, Viajar FT

O Patriarca em Roma: “o êxodo dos cristãos é uma hemorragia que amputa a Igreja de Jerusalém dos seus melhores elementos”

O Patriarca em Roma: “o êxodo dos cristãos é uma hemorragia que amputa a Igreja de Jerusalém dos seus melhores elementos”

 

ROMA – Quinta-feira, 14 de Abril de 2016, numa conferência na Universidade Pontifícia de Santa Cruz em Roma, Mons. Fouad Twal, Patriarca Latino de Jerusalém, expôs, frente a 400 pessoas, a actual situação dos cristãos na Terra Santa e os inúmeros desafios a que têm de fazer face tanto na Palestina como em Israel.

O Patriarca voltou às origens históricas da primeira comunidade cristã, a Igreja de Jerusalém, composta pela “Ecclesia ex gentibus”, os judeus cristãos e a Ecclesia ex gentibus” (Gregos, Romanos, Arameus, Cananeus, Fenícios, Filisteus, Nabateus, Moabitas, Amanitas, etc.). A Igreja de Jerusalém conheceu numerosos regimes, árabe, dos cruzados, otomano, depois inglês e, hoje em dia, a Antiga Terra Santa está dividida em três países: a Palestina, a Jordânia e Israel, três regiões que formam com Chipre a “Diocese de Jerusalém” sob jurisdição do Patriarcado. Os cristãos representam uma pequena minoria, cerca de 2% da população, fez notar o Sua Beatitude, lamentando a quebra da presença cristã em Jerusalém, que representava um quarto da população em 1948, data da criação do Estado de Israel, contra 1,97 % da população nos dias de hoje. Mas a vocação dos cristãos, por mais minoritários que sejam, não é das menos importantes, sublinhou o Patriarca. “Os cristãos vivem entre duas maiorias, a judaica e a muçulmana”, são o “pequeno rebanho” de que nos fala o Evangelho, chamado a ser uma ponte entre as duas religiões, as duas civilizações, mas também entre duas políticas”. O Patriarca evocou os numerosos desafios a que a comunidade cristã tem de fazer face causados pelo conflito israelo-palestiniano, “a ocupação militar, as humilhações quotidianas, a violência das duas partes, a intifada das facas e a subida dos fanatismos religiosos tanto judeu como muçulmano”. Um conflito dolorosamente materializado no “muro de separação” com cerca de 8 metros de altura e de mais de 700 km de comprimento. O Patriarca partilhou a sua inquietação quanto ao “êxodo dos cristãos” que atinge principalmente os jovens e os intelectuais em busca de uma vida e de um futuro melhores: “uma hemorragia que amputa a Igreja dos seus melhores elementos”

Os cristãos da Terra Santa que têm uma história, uma língua, uma cultura em comum com os muçulmanos com os quais vivem há séculos, “têm um papel positivo no seio da sociedade árabe e são facilitadores das relações entre as diferentes componentes sociais”. O Patriarca sublinhou a importante missão das escolas cristãs na Palestina um dos países do Médio Oriente com maior número de analfabetos. Algumas práticas educativas não são sempre compreendidas pelos muçulmanos, referiu o Patriarca, nomeadamente a “da teologia da misericórdia, do perdão e do trabalho de purificação da memória” difíceis de entender no contexto do conflito.

Mons. Fouad Twal evocou igualmente o acordo assinado a 26 de Junho de 2015, entre a Santa Sé e o Estado da Palestina, cujo impacto foi muito positivo em todo o mundo árabe muçulmano. No acordo, preconizando uma “paz justa e duradoura”, aparece pela primeira vez a designação de “Estado da Palestina”, num texto oficial assinado pelas duas partes o que não foi muito bem recebido pelo lado israelita: como reação Israel ordenou a construção de um novo troço do “muro de separação” no Vale de Crémissan, um projecto “iníquo e sem qualquer sentido!”. Dois meses antes, em Abril de 2015, o Supremo Tribunal de Israel parecia ter uma opinião contrária à sua edificação declarando que este muro “não era necessário à segurança de Israel”.

Depois de ter exposto a situação dos cristãos na Palestina, o Patriarca debruçou-se sobre a daqueles que vivem em Israel. Para Deus, os judeus não deixaram de ser o povo eleito, fazendo referência a uma Carta de S. Paulo aos Romanos. Mas trata-se de uma escolha que não é exclusiva, que inclui todos os povos. A comunidade cristã tem assim o “dever de ajudar os judeus a descobrirem a sua vocação universalista”. A comunidade cristã em Israel é composta maioritariamente por migrantes, na sua maioria vindos da Filipinas dos países de África ou da Índia, que escolarizam os seus filhos em escolas israelitas e que falam hebreu “com os risco de por vezes perderem as suas raízes cristãs” porque Israel, sublinhou ainda o Patriarca, mesmo declarando ser um Estado laico e democrático, o seu comportamento é, na realidade, o de um estado teocrático que faz prevalecer a “Lei Judaica”. De seguida, Mons. Twal evocou os limites do acordo fundamental assinado por Israel pela Santa Sé, em 1993. Citando expressamente os artigos 1, 3, 4, 10 e 11, sublinhou as pedras angulares de um acordo que continua em negociação: a liberdade de culto para todos os cristãos palestinos que se não podem deslocar aos locais santos sem uma prévia “autorização emitida pelas autoridades militares israelitas” e “as humilhações nos pontos de controlo”. A diminuição drástica dos subsídios do Estado de Israel às escolas cristãs, subsidiadas em cerca de 29%, face aos 100% dados às escolas religiosas israelitas, ou ainda o respeito pelo status quo nos lugares santos. “Os actos de fanatismo perpetrados, nestes últimos tempos por fanáticos em Tabgha, Beit Gemal, na Dormição etc…ficam, na sua maioria impunes” declarou o Patriarca lembrando também a presença de pessoas mais moderadas em Israel, e de todos os que trabalham para o diálogo e a justiça num desejo de paz.

A procura de segurança torna-se uma obsessão, um mito que justifica todas as injustiças e toda a violência imediata” observou o Bispo de Jerusalém deplorando o facto de Israel nunca ter “respeitado as numerosas resoluções internacionais sobre o conflito dos colunatos e das fronteiras “pugnando pela solução com dois estados com fronteiras claramente definidas e seguras”.

Os cristãos da Terra Santa, concluiu por fim Sua Beatitude, “são o testemunho vivo da história da salvação”. Graças a eles, os Lugares Santos não estão reduzidos a meros lugares arqueológicos”. Ecuménica e inter-religiosa, a Terra Santa tem uma vocação universal e os seus cristãos são uma ponte entre o Oriente e o Ocidente”.

A esperança da Igreja Mãe não é em vão. “Um dia, os dirigentes políticos, os israelitas assim como toda a comunidade internacional compreenderão que, para lá dos interesses e do jogo político, o sentido, a natureza e a vocação desta terra bendita que foi escolhida por Deus para unir os homens a Ele e uns aos outros”.

Myriam Ambroselli
Fotografias: © Pontifícia Universidade da Santa Cruz – Roma

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