Pages Menu
Categories Menu

Posted on 16 May, 2016 in Diocese, Política e sociedade, Slide, Vida espiritual

A missão dinâmica da Terra Santa

A missão dinâmica da Terra Santa

 

ENTREVISTA – Numa entrevista dada à Salt and Light Television, a 3 de Março de 2016, o Padre David Neuhaus SJ, Vigário Patriarcal para os católicos de expressão hebraica, falou de novo da sua vocação e da particular missão da Terra Santa e da Igreja de Jerusalém.

Com o Padre David M. Neuhaus, SJ
Pelo Padre Thomas B. Rosica, CSB
Nossa Senhora de Jerusalém

Thomas Rosica (PTR): Obrigado, Padre David Neuhaus, pelo tempo que nos concedeu durante a sua visita a Jerusalém, apesar da sua agenda tão sobrecarregada. Benvindo!

Padre David Neuhaus (PDN). Obrigado, é para mim uma honra.

PTR – É jesuíta e Vigário Patriarcal para os católicos de expressão hebraica e muito implicado na Comissão para a Pastoral dos Migrantes do Patriarcado Latino. É também membro da Companhia de Jesus, recentemente ordenado padre, mas também com sangue judeu. Assim sendo, comecemos pelo princípio: fale-me de David Neuhaus e da sua experiência na África do Su, no seio de uma família judaica.

PDN: Cresci numa família de migrantes. De migrantes judeus. A minha família fugiu da Alemanha Nazi nos anos 30 e encontrou abrigo numa comunidade judaica muito unida na África do Sul, onde nasci em 1962 e onde fiz toda a minha escolaridade no sistema escolar judaico local. É um ensino do qual a diáspora judaica sempre se orgulhou, e com razão. Aos 15 anos os meus pais decidiram mandar-me para Israel. O situação na África do Sul era, nessa época, bastante tensa (estamos a falar dos anos 1976/77), eu estava inscrito numa escola judaica que proponha aos alunos partirem para Israel, e eu parti, chorando e berrando porque não queria ir.

PTR: Onde fez o seu Bar Mitzvah? Na África do Sul ou em Israel?

PDN: Na África do Sul, dois anos antes da minha chegada aqui.

PTR: O que representava Israel para o jovem judeu que então era?

PDN: Penso que representava qualquer coisa de muito judeu. Mas esta animada cidade, para mim, parecia ser verdadeiramente o centro do mundo. Não acreditava em Deus, rezamos unicamente por dever. Estudava numa escola judaica que proponha em matéria de religião o que muitas escolas católicas propõem. Mas a questão de Deus não me interessava. O que eu sentia era a energia palpitante desta cidade que eu queria explorar. Parti assim à descoberta de Jerusalém. Tinham-nos mostrados muitos sítios da cidade, mas eram os locais que não nos mostravam que eu achava absolutamente fascinantes.

PTR: Que lugares?

PDN: Os bairros cristãos, os bairros muçulmanos, os bairros árabes. Tudo o que não me tinham mostrado fascinava-me. Além disso, por razões de que já me não lembro, estava fascinado pela história russa de então, e para mim foi um ponto de honra visitar os mosteiros russos. Na realidade, naquela época, somente com 15 anos, eu queria escrever um livro sobre uma mulher canonizada pela Igreja Russa: Santa Elizabeth Fedorovna, irmã da última Imperatriz russa. É uma mulher que sempre me fascinou. Está enterrada em Jerusalém depois de uma vida incrivelmente dramática.

Foi então que descobri que uma parente afastada de Santa Elizabeth, Madre Tamara, era a Madre Abadessa de um mosteiro do Monte das Oliveiras. Fugi então do internato, um sábado à tarde, um dia de Shabbat, para ir a este mosteiro tentar conseguir um encontro com a Madre Tamara, que estava em coma. A minha tentativa não foi infelizmente coroada de sucesso, mas uma religiosa que velava a Madre Tamara disse-me que havia uma outra irmã que tinha conhecido Elizabeht Fedorovna: “ vai vê-la” disse-me nesse dia. Sai a correr para ir ver a Irmã Barbara, uma religiosa ortodoxa russa de 89 anos, paralisada há cerca de 20 anos e instalada num pequeno quarto. A receita perfeita para uma depressão. Apesar de tudo, fui vê-la, falar com ela. Passámos três boas horas juntos. Falava com muito entusiasmo de Elizabeth Federovna, da família Romanof, da vida durante o Império russo…Eu estava totalmente encantado, com num sonho. Agradeci-lhe e voltei para o internato. Foi durante o caminho de volta que percebi uma coisa que pode parecer totalmente ridícula: acabava de conhecer a pessoa mais feliz em toda a minha vida, e pensei que isso era impossível, com quase noventa anos, religiosa, paralisada….não era possível!

Voltei a saltar o muro, no sábado seguinte, para me encontrar de novo a Irmã Bárbara. Mal a vi disse-lhe: “Irmã Bárbara, não estou aqui para falar nem de Santa Elizabeth nem da Rússia.” Queria-lhe fazer uma pergunta: porque está sempre tão alegre?”. Olhou para mim um pouco constrangida porque, calculo que soubesse que eu era judeu. Insisti: “quero mesmo saber”! Por fim ela diz-me: está bem vou-te dizer. Estou apaixonada”. Pensei que era louca, o que explicaria a sua resposta. Foi então que me começou a falar daquele que amava. Ele estava alí. Nunca duvidei da Sua presença por causa felicidade verdadeira de que era testemunho a Irmã Bárbara. Esperava então que no decurso das semanas seguintes a encontraria, a força da alegria desta mulher paralisada e no entanto tão feliz foi o elemento que tudo desencadeou. Então pensei que devo e agora que devo fazer? Aqui sou ateu, judeu e orgulhoso de o ser, orgulhoso de ser um ateu de 15 anos e, no entanto, acabo de encontrar Jesus Cristo…

PTR: Em Jerusalém?

PDN: Em Jerusalém. Passei então os meses seguintes a exteriorizar tudo isto. Primeiro tive uma conversa muito franca com os meus pais …os meus pais, judeus pouco praticantes, mas muito judeus, tendo fugido da Alemanha nazi como o fizeram também as suas famílias. Quando lhes disse “Pai, Mãe, mandaram-me para Israel e sabem o que aconteceu? Eu acredito em Deus que tem um filho chamado Jesus Cristo”, a sua primeira reacção foi: como te podes juntar aos que nos fizeram tanto mal?” Fiquei sem reacção durante um momento. Não tinha pensado nisso. Não tinha pensado nisso, eu falo-lhes de Jesus e eles dizem-me “mas tu és judeu” Fiz então uma promessa aos meus pais. Disse-lhes: “sabem que mais, vamo-nos descontrair. Prometo-vos fazer uma pausa de dez anos e se continuar assim, quando tiver 25 anos, então os pais aceitam” Olharam para mim, sorriram um para outro e reponderam “de acordo”. Pensavam certamente que me tornaria budista ou muçulmano no futuro. E foi assim que resolvemos a crise.

Durante os dez seguintes anos, não só tentei conhecer melhor Jesus Cristo, mas também tentar obter respostas para a questão dos meus pais. Como podiam os discípulos de Cristo portarem-se desta maneira? Os que pretendem ser discípulos de Cristo, claro…

Na Igreja russa ortodoxa não encontrava resposta à minha pergunta. Pelo menos uma resposta que me satisfizesse. Uma reposta que me davam era: “David, o mundo é um lugar mau, muitas coisas más acontecem. Se queres estar em segurança, fica aqui, reza, fica na liturgia”. Tenho a certeza que já sabe, mas a liturgia russa é uma antevisão do céu, a liturgia bizantina representa com efeito o céu. Mas respondi: impossível, não posso fazer isso. Já tinha visto, na minha curta experiência, irmãs que viviam no mundo: irradiavam felicidade, havia também pessoas felizes fora da liturgia. Não podia aceitar essa separação.

Continuei à procura, a examinar a questão, e houve dois acontecimentos que foram determinantes. O primeiro foi o meu encontro com o Papa João XXIII. Naturalmente não foi um encontro pessoal, mas comecei a ler sobre ele, depois a ler os seus escritos e penso que, a num certo nível a dúvida dos meus pais era também a sua dúvida. Ele meditava e refletia e nesta questão. O segundo acontecimento foi o encontro com pessoas que tinham a mesma dúvida. A Companhia de Jesus. E foi assim que lentamente, mas com segurança me fui aproximando da óptica da Igreja Católica. Os anos iam passando e eu respeitava o período de dez anos de reflexão, de meditação e de discernimento. Palavras de jesuíta antes de me tornar jesuíta.

Quando o tempo de reflexão terminou, os meus pais estavam prontos. Prontos para aceitarem que a ovelha negra da família pudesse ser baptizada. Aceitaram mesmo que fosse padre e me tornasse religioso. Foi uma bela aventura que uniu ainda mais a nossa família.

PTE: A minha primeira reacção estava certa: “Meu Deus…Huau”!

PDN: Deixe-me que lhe diga que foi um percurso particularmente interessante, tanto mais que ao fim destes dez anos passados a descobrir a comunidade católica de expressão hebraica da qual me tornei um membro activo, tenho actualmente a meu cargo essa mesma comunidade. Insisto para que nela se conserve a mesma política com que eu me confrontei quando cheguei e disse “eh! amigos, acredito em Deus e quero ser baptizado”. Nessa altura responderam-me: “és completamente doido, e demasiado impaciente. Não se bptizam as pessoas assim. Antes é preciso aprender, estudar, enraizar-se na comunidade, pensar pelo menos dois anos”. Ao que respondi: “ok, assim tenho pelo menos dois anos para sair do armário”. Ninguém sabia então o que se passava no mais profundo do meu coração além dos meus pais e alguns amigos bem escolhidos. Fui finalmente baptizado depois de dois anos de espera. Uma irlandesa maravilhosa, a Irmã de S. José da Aparição, foi a minha madrinha.

PTR: Que era minha amiga, a Irmã Catherine Casey…

PDN: Sim, a sua amiga, Irmã Catherine Casey, acompanhou-me durante muitos anos antes de ser baptizado. Foi um jesuíta que me baptizou, era então capelão da comunidade de expressão hebraica de Jerusalém. N dia do meu baptizado disse-lhe: “Padre, percebeu, sabe, eu quero ser jesuíta”. Olhou para mim e disse-me: porquê querer ir tão depressa? Nos jesuítas não aceitamos recém-baptizados. Tem de esperar três anos”.

Ok. Fiz um doutoramento em ciências políticas na Universidade Hebraica. Foram três maravilhosos anos de investigação e estudo para conhecer cada vez melhor a Igreja local, uma vez que uma parte da minha investigação era-lhe consagrada. Por fim, fui autorizado a postular na Companhia de Jesus.

PTR: De que província depende?

PDN: Isso é também uma história interessante! Quando entrei disse: “Eh! amigos, quero fazer parte desta província (ou seja, da Província do Médio Oriente), quero ficar aqui, a minha vida é aqui”

PTR: Então não depende da África do Sul?

PDN: Não, nunca conheci a Igreja da África do Sul. Mas quando fiz o meu pedido ao Provincial, um egípcio muito sensato, que vivia em Beirute disse-me: “David, não o podemos acolher nesta província. Somos egípcios, sírios, libaneses e o David é um judeu israelita. Estamos em guerra, como o podemos acolher entre nós?” Apesar da minha decepção, estava de acordo com ele, a sua decisão era perfeitamente lógica. Aconselhou-me então que fosse à província de Nova Inglaterra, em Boston, que tem laços muito fortes com o Médio Oriente. Fiquei muito perturbado com tudo isto. Entrei em contacto com a Província de Nova Inglaterra que me aceitou. No momento da despedida o Provincial do Médio Oriente disse-me: “não devemos fazer profecias, o seu lugar é entre nós, vá para Nova Inglaterra adquirir experiência e volte para nos vermos”. Foi assim que no meu segundo ano de noviciado, fui ao Egipto passar uns tempos maravilhosos com o mestre dos noviços que foi, mais tarde, Provincial do Médio Oriente. Eramos quatro noviços eu, judeu israelita, dois egípcios e um sírio. Os meus três co-noviços estão, hoje, todos casados em França e eu fui o único do grupo que ficou na Companhia de Jesus. Mas, na realidade, esta experiência de viver e de estar totalmente integrado na Igreja local, a Igreja palestiniana de expressão árabe, a maior Igreja do Médio Oriente, conservando no entanto uma identidade de judeu de língua hebraica, foi simplesmente incrível.

PTR: Que sente dentro de si, na sua qualidade de judeu israelita, nascido na África do Sul, a viver no meio desta tensão, neste ciclone, se preferir?

PDN: Vivo-o como uma graça. Uma graça maravilhosa. Sobretudo porque penso qua a não vivo sozinho. É toda a Igreja que é chamada a vivê-la. E, verdade seja dita, não temos de viver no meio, mas totalmente inseridos nesta duas sociedades que se dilaceram, a sociedade israelita e a sociedade palestiniana. Tudo isto é uma graça especial concedida à Igreja da Terra Santa profundamente alicerçada nestas duas realidades. Mais uma vez digo, não gosto dos que afirmam que a Igreja deve estar no meio. O nosso lugar não é ao meio, o nosso lugar é ser o fermento e a semente, e aqui vejo a Igreja profundamente enraizada desde há séculos, desde o início. Os primeiros árabes que acreditaram em Cristo estão mencionados nos Actos dos Apóstolos e, assim, podemos dizer que a Igreja de língua árabe pode-se ver desde há dois mil anos, tal como a Igreja judaica de língua aramaica. Quando olhamos para a nossa época, vemos que Deus, com o seu habitual sentido de humor, enraizou profundamente sua Igreja nas duas sociedades rivais, o que faz de nós testemunhas de uma realidade. Esta realidade é que somos uma Igreja totalmente estrangeira ao mundo no qual vivemos.

PTR: Nunca deixou de pensar que a experiência que vive é a própria experiencia do Pentecostes com os Medos, os Elamitas e os Partas e com este grupo ou aquele, com os judeus e os não judeus…

PDN: É o que somos chamados a viver…

PTR: E é o que vive o P. Neuhaus…

PDN: Bem, penso que não é unicamente David Neuhaus, penso que é toda a Igreja da Terra Santa. Esta Igreja que toma cada vez mais consciência do que ela é, como foi formada por Deus, porque temos esta pequena presença católica de língua hebraica, que no nosso país temos uma forte presença institucional árabe palestiniana. Sempre tivemos uma população de expatriados, mas agora há uma enorme população de migrantes que acaba de se instalar principalmente do lado judeu. Se pudermos compreender totalmente o que é a Igreja, compreenderemos perfeitamente o mistério do Pentecostes. Há uma missão escatológica de Jerusalém que desce como uma esposa. Penso que é extremamente importante para a vocação da Igreja falar esta língua, que é a língua do Reino. É a língua do que parece impossível mas que é criada cada vez que se celebra a Eucaristia. Agora, tomei plenamente consciência de tudo isto. Há um ano e meio, tivemos uma guerra terrível aqui, mais uma vez, nada de novo. Todos os dias pensava em Gaza e na nossa paróquia da Sagrada Família, na Faixa de Gaza, onde as pessoas viviam com medo, os israelitas bombardeavam Gaza sem parar, arrasando zonas inteiras da cidade. E na paróquia de Gaza, as pessoas celebravam a Eucaristia todos os dias. A alguns quilómetros, está a cidade de Beer Shava, temos aí uma pequena paróquia, a paróquia de Nosso Pai Abraão. A Eucaristia era aí celebrada todos os dias, em hebreu, muitas vezes nos abrigos por causa dos roquetes lançados pelo Hamas. Que realidade criou esta situação? Era só um ritual ou é a Igreja que todos os dias, dá um falso testemunho do que atravessa o país?

Penso que é necessário refletir muito neste ponto.

Durante muitos anos, tivemos um Patriarca fantástico, que refletiu a fundo nesta questão e que conduziu a Igreja da Terra Santa para a frente, tendo sempre a ideia de que ela é um sinal escatológico do que este país é chamado a ser. Para lá de todas as hostilidades e de todas as guerras, os cristãos são testemunho do que parece ser impossível, mas nós sabemos no entanto ser possível porque esta é a lógica do Reino.

PTR: Estou contente por descobrir o papel que teve na sua vida, tal como na minha, Mons. Michel Sabbah. Qual foi a sua influência, aqui em Jerusalém desde1988? O que o impressionou e lhe deu este sentimento de “Ecclesia”, este sentido universal da missão da Igreja?

PDN: Duas coisas e duas coisas que são muito claras. Há com certeza muito mais a dizer sobre ele, a sua humildade, a sua prudência, a sua capacidade de ser um líder. Mas referir-me-ei somente a duas. Primeira é a sua tomada de consciência de que não podemos falar a linguagem dos políticos, da rua, ou mesmo do nosso sistema educativo na Palestina e em Israel. Temos necessidade de desenvolver uma linguagem que seja fiel ao que somos enquanto cristãos o que significa que palavras que são constantemente usadas na rua se tornam palavras que não devemos usar ou que só devemos usar de forma muito crítica. Palavras como “inimigos, ódio, vingança”. São palavras que para nós, enquanto cristãos, não podem ter lugar na nossa linguagem. Está bem, outras palavras como “perdão, arrependimento, amor” são palavras que devemos levar a sério. Assim, a língua é um sinal, temos uma forma particular de falar, é a língua do Reino: o Reino está muito presente quando celebramos a Eucaristia, mas ausente enquanto o mundo não for eucarístico.

O segundo ponto é o facto de criar instituições que falem esta linguagem e o de fazer tomar consciência às instituições já existentes de qual é o nosso dever. Ao contruir a Igreja devem-se abater os muros. Pensamos construir uma Igreja e levantamos muros e, nas nossas comunidades cristãs onde há tantos medos, podemos compreender que esta atitude é humana e natural. Estes muros que se levantam quando temos medo, são os muros que destroem a Igreja em vez de a contruírem. Em resumo, a insistência do Patriarca Sabbah para estar em permanente diálogo com todos os parceiros da nossa sociedade que partilhem os nossos valores quer sejam judeus ou muçulmanos.

Fiz parte, há alguns anos , de uma comissão dinâmica para o diálogo com o povo judeu e para se ter uma visão crítica sobre o significado desse diálogo no contexto actual do país. Nós compreendemos o que isto significa no actual contexto da Europa. Compreendo que os judeus que viviam marginalizados sofreram porque era uma pequena uma minoria. Esta não é a realidade em Israel. Os judeus são uma maioria dominante. Que significa isto no diálogo entre a Igreja e Israel? Significa algo de totalmente diferente. Portanto temos nós de pensar neste diálogo de uma forma criativa, na formulação do discurso como reforço das instituições e isto é uma herança que nos deixou o Patriarca Michel Sabbah temos de continuar a trabalhar nesse sentido.

PTR: Quando muitos olham para a Terra Santa, e mais particularmente para a Igreja de Jerusalém, para o Patriarcado, muitos não percebem que há também uma comunidade dinâmica de católicos de expressão hebraica da qual sou hoje o Vigário. Qual é o objectivo desta comunidade? Quem são os católicos que dela fazem parte? Simplesmente judeus convertidos em Israel com uma experiência similar à vossa? Expatriados que vêem aqui uma boa razão para falar hebreu e uma liturgia nessa língua? Quem pode compreender essa comunidade.

PDN: Somos uma comunidade muito diversificada, temos sete paróquias de língua hebraica em Israel e uma comunidade diversa. Vivemos num lugar histórico que que tentamos sempre honrar, a nossa comunidade cristã estabeleceu-se depois do Holocausto, depois da Shoah. É uma comunidade profundamente solidária com o povo judeu depois da Shoah. Somos profundamente marcados por um enorme reconhecimento pelas nossas raízes judaicas. Somos uma comunidade de pioneiros do que será mais tarde ensinado pela Nova Aetate. A nossa comunidade foi fundada dez anos antes da publicação de Nova Aetate. Alguns dos nossos fundadores, como o Padre Bruno, estavam entre os visionários que mais tarde puderam explicar a visão de Nostra Aetate. A nossa comunidade foi fundada por alguns judeus convertidos, nunca tivemos muitos judeus convertidos, cristãos membros de famílias judaicas que encontraram um lar em Israel depois da Shoah, ou quando um judeu deixou a Polónia, a Hungria ou a Roménia com a sua mulher católica, muitas vezes fervorosa. Vieram para Israel, integraram-se na sociedade judaica começaram a falar hebreu, ao princípio mal, mas os seus filhos já o falavam perfeitamente….Tinham necessidade de uma Igreja, os Justos entre as Nações, os que tinham salvado judeus durante a Shoah e que tinham igualmente imigrado para Israel. Havia então um dinamismo, e uma vitalidade nestes primeiros tempos em que a comunidade contava, calcula-se, mas não se sabe ao certo, com milhares de membros, uma igreja escondida por causa da Igreja, porque se alguém procurasse uma Igreja em Israel encontrava uma igreja de língua árabe maioritariamente palestiniana. Os primeiros membros da nossa comunidade ficavam na sombra, não queriam ser vedetas então eram discretos. O que aconteceu foi que, com o correr dos anos, a nossa comunidade transformou-se. Muitos dos seus jovens foram assimilados pela comunidade judaica laica. A comunidade foi-se tornando mais pequena, mas teve uma renovação nos anos 90. Primeiro com a chegada maciça de russos, centenas de milhares dos quais eram cristãos. Centenas de milhares que não eram Judeus, eram sobretudo cristãos ortodoxos maioritariamente russos. Mas a nossa comunidade teve assim um impulso novo com todas estas famílias que se integraram na Igreja Católica.

Mas o que transformou verdadeiramente a vida da Igreja na sociedade judaica israelita de expressão hebraica, foi o facto de Israel se ter tornado um país rico. Um país rico como os países da Europa, o Canadá, Os Estados Unidos ou a Australia. Os países ricos atraem enormes migrações: migrações de mão-de-obra, de pessoas que vêm à procura de trabalho, de pobres, dos que fogem de conflitos e da fome refugiados e, neste momento, o número de migrantes talvez ultrapasse o número de cidadãos cristãos israelitas. São pessoas que vivem na sociedade judaica de língua hebraica. Eles não falam hebreu, não podem rezar em hebreu. Eles rezam em Tagalog, Concanim, Malaio, Tigrinia, Cingalês e em muitas outras línguas de mundo em vias de desenvolvimento. Mas os seus filhos, na sua maioria nascidos aqui, falam hebreu perfeitamente, estão nas escolas, nos jardins infantis, seguem a escolaridade normal e não sabemos o que o futuro lhes reserva. Alguns estão já no país há duas gerações. Conheço mesmo um caso de três gerações vivendo à margem da sociedade israelita de língua hebraica. Ninguém os vê como judeus. Eles estão dentro de uma certa medida socialmente integrados, mas não sabemos o que será o seu futuro, mas temos de estar ao seu serviço. E insisto, isto é parte integrante da missão da Igreja na Terra Santa, reconhecendo que não é uma Igreja condenada a sobreviver atrás de muros, mas uma Igreja que tem uma missão, uma missão também junto dos mais pobres dos pobres da Terra Santa de hoje – os trabalhadores migrantes, os explorados e abusados como aliás no resto do mundo.

PTR: Isto faz também parte do vosso ministério, esta comissão que se ocupa desta população de migrantes, entres os grupos que aqui vivem, e esses grandes grupos, quais são? A quem é destinado este este outro aspecto do vosso ministério pastoral?

PDN: Se falámos de cristãos em geral e não somente de católicos, referimo-nos agora às dezenas de milhares de africanos, de dezenas e milhares de asiáticos, e de dezenas de milhares de europeus do Leste. Quando falamos em católicos a população é prioritariamente asiática: filipinos, indianos, e do Sri Lanka.

PTR: E estão aqui com trabalhadores domésticos?

PDN: No meio médico, muitos trabalham como enfermeiros, há trabalhadores não especializados e em trabalhos pesados que os ricos não querem fazer. Assim temos de novo uma comunidade muito dinâmica, que não é necessariamente de língua hebraica, mas vivendo integralmente na sociedade de língua hebraica. O desafio é, uma vez mais, o de estar em comunhão com a Igreja de expressão árabe, para que possamos sempre reconhecer que somos um sinal desta união que ainda não existe.

PTR – Permita-me voltar atrás, ao seu desejo de entrar para a Companhia de Jesus, porque os jesuítas se questionam, põem grandes questões ou sérias questões, quais são então estas questões que vive hoje na sua extraordinária vocação?

PDN: Bem, penso que uma das questões predominantes – é uma questão bíblica que remonta até à interrogação que se repete ao longo de todo nós fazer interrogando-nos constantemente sobre quem somos, qual é a nossa identidade, qual deveria ser a nossa missão? Poderemos então dizer que a grande interrogação, uma interrogação que foi sempre fundamental na minha vida, é: quem é este Homem?” “Que fará ele?” Mas penso que enquanto Igreja aqui, não devemos estar sempre a refletir sobre “o que devemos fazer? Que devemos fazer?” Parece totalmente claro que temos de sobreviver. A qualquer preço, os nossos cristãos deixam o país, estão aterrorizados, devemos sobreviver, deixem-nos levantar muros. E também aí a mesma questão se põe, mas que devemos fazer? É verdadeiramente necessário escondermo-nos atrás de muros? Deveríamos ficar em ghettos? Ou devemos seguir este homem – ridículo, impossível, inaceitável, estúpido! – Este Homem que dizia constantemente aos seus discípulos – temos de sair, temos de ir ao outro lado, temos de estar sempre em movimento. Esta missão dinâmica de Jesus é verdadeiramente uma fonte muito importante de reflexão, penso eu, para a nossa Igreja.

PTR: Padre David Neuhaus, quero agradecer-lhe por não tornar este muros ainda maiores e por construir pontes em todas as direções possíveis. Asseguro-lhe que não será esta a última vez que Salt and Light Television estará consigo. Obrigado, toda raba, shukran iktir.

PDN: Obrigado, agradeço-lhe muito.

SALT and Light Television