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Posted on 27 Jul, 2016 in Diocese, Noticias da diocese, Slide

Diário de viagem de um palestino nas JMJ em Cracóvia

Diário de viagem de um palestino nas JMJ em Cracóvia

 

POLÓNIA – Cerca de 700 jovens da Diocese de Jerusalém partiram na segunda-feira para participarem nas Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) que têm lugar, este ano, em Cracóvia, na Polónia. Siga, dia após dia, o seu périplo na Polónia, desde a sua partida de Jerusalém até à missa com o Papa Francisco, através do diário de George (nome fictício) que reúne os diferentes testemunhos e sentimentos que vivem os jovens do grupo da Palestina.

Verão de 2016, George é o nome fictício do jovem cristão Palestiniano de Jerusalém, que viaja para participar nas JMJ de 2016, que têm lugar este ano em Cracóvia, na Polónia, com a presença do Papa Francisco. Ele vive no quotidiano as experiências enriquecedoras e impressionantes que, pouco a pouco, transformam a sua alma esgotada por uma vida superficial centrada nas preocupações materiais e egoístas.

 

1ºDia – Partida (segunda-feira, 18 de julho de 2016)

De Jerusalém a Bem Gurion

Sem dormir nesta noite de 17 para 18 de Julho. Os últimos preparativos para esta longa viagem de 3 semanas na Polónia não me deixam dormir… não me quero esquecer de nada. De qualquer maneira não vale a pena deitar-me por uma hora uma vez que a partida está prevista, no Notre Dame, às duas da manhã. O avião descola às 7h50 da manhã e desta vez não partiremos de Amã, mas de Bem Gurion (Telavive). É melhor? As opiniões dividem-se, pois alguns sublinham, com razão, que o controlo é muito apertado para os palestinos em Bem Gurion.

De madrugada, um pensamento leva-me para o Senhor e peço-lhe que “abençoe” a minha peregrinação e a dos 180 jovens e acompanhantes que participam nas JMJ vindos da Palestina.

Às 3h45, chegámos a Bem Gurion. Um primeiro controlo à entrada, partimos em seguida para o Terminal. Até então não percebíamos porque tínhamos partido tão cedo. Mas uma vez frente aos guichés compreendemos que o registo das nossas bagagens levaria muito tempo. Com efeito não nos despacharemos antes das 8h. da manhã. Tínhamo-nos esquecido de um segundo e apertado controlo, que, por sermos palestinos, tínhamos de passar, antes do controlo dos passaportes. Revistaram todas as nossas bagagens de mão, por duas vezes, antes de nos deixarem passar para o controlo dos passaportes. Estamos muito atrasados, o voo foi retardado de uma hora e meia.

De Telavive a Varsóvia

Enchemos um avião Low Cost, o único grupo a bordo. Eramos muitos. Há jovens à volta de mim que viajam pela primeira vez na sua vida. Alguns têm medo do avião, uma ou duas pessoas pelo menos têm vertigens. Mas a situação está sob controlo.

Depois de quatro horas e meia de viagem, eis-nos chegados à capital polaca. Uma bonita cidade moderna que visitaremos mais tarde. Por agora, estamos tão cansados que não pensamos senão numa coisa: dormir para recuperar das 24h sem dormir.

De Varsóvia a Torum

Mas, surpresa, temos de apanhar um autocarro para chegar à cidade de Torum que nos vai acolher durante 3 dias, situada a três horas de autocarro desde Varsóvia. Os jovens rabujam um bocado, mas o acolhimento é de tal forma caloroso e tão minuciosamente preparado pelos nossos amigos polacos que nos sossegou um pouco e deu-nos coragem para esperarmos. No autocarro, os jovens ou dormem ou conversam. Estão exepcionalmente sossegados, provavelmente por causa do cansaço. Tanto melhor. Momento para mim para pensar um pouco e talvez rezar. Estão aqui, à minha frente, as duas principais vertentes destas JMJ: oração e fraternidade.

Em Torum o acolhimento é extraordinário. Nada falta. Penso que o povo polaco quando se envolve, entrega-se totalmente. Penso também que nós, palestinos em particular e árabes em geral, temos algumas coisas a aprender com este povo: o espírito de rigor no trabalho, o comprometer-se a fundo e também o privilegiar o bem comum.

Uma missa solene foi celebrada na Igreja dos militares dedicada a Santa Catarina. Uma construção neogótica do séc. XIX. A liturgia foi acompanhada pelos nossos amigos polacos, por um grupo africano extraordinariamente animado e por nós mesmo.

A missa foi seguida por um lauto jantar no hall do liceu onde ficamos instalados durante 3 dias.

O primeiro dia terminou….é preciso dormir pois o pois o programa do dia seguinte, bastante sobrecarregado, já foi anunciado. Obrigada Senhor, tu deste-me tanto durante este longo dia de amizade e de beleza, dai-me um coração que escute,um coração em paz, um coração sábio para viver intensamente estes próximos dias na tua presença e no teu amor. Cura a minha alma, tenho sede de paz….da Tua Paz.

 

2º Dia – À descoberta de Torum. Primeiro contacto com a vida polaca. (terça-feira, 19 de Julho de 2016).

São 8h00, o pequen–almoço já está pronto na mesma sala de ontem, notoriamente o nosso “refeitório” de todos os dias. No menu: ovos, presunto e manteiga polacos, diferentes queijos, e um óptimo pão acabado de fazer. A cozinha polaca continua a surpreender-nos e a agradar-nos!

No programa, várias visitas à cidade. Primeiro no Palácio do Governo, com uma conferência de imprensa e um encontro com o Governador. De seguida, uma visita à cidade onde encontrámos uma estátua de Copérnico. Visitámos um museu com uma mostra da vida do Padre Jerzy Polieluszko, uma importante figura da resistência contra o comunismo nos anos 80. Este jovem padre, que deu a sua vida pela libertação do seu país, foi cruelmente assassinado pelos comunistas.

Depois de um excelente almoço, fomos visitar uma aldeia tradicional do séc. XVIII ou XIX para aprendermos a confecionar o tradicional pão de especiarias polaco. Um concerto foi-nos oferecido pelos militares e por um jovem palestino de Naplusa que vive na Polónia e que fundou, com amigos polacos, um grupo de música oriental e ocidental chamado “boukra” que em árabe significa “amanhã”.

De volta à nossa residência, aproveitámos um tempo livre para, em pequenos grupos de dez, descobrirmos a cidade….pudemos assim encontrar amigos do grupo e o Padre Martin Schmidt ( o padre que organizou o nosso acolhimento), a cerveja polaca e o que resta da antiga cidade de Torum, sobretudo as muralhas medievais e o seu rio.

Obrigada, Senhor, por este segundo dia. Ensina-me a alegrar-me com a beleza, a simplicidade e a temperança. Ensina-me a estar mais atento aos outros, às suas necessidades e às suas fragilidades. Concedeu-me a vontade da integridade e da perseverança. Ámen.

 

3ºdia – Em direcção ao Norte ao Mar Báltico.

Depois da missa celebrada de manhã cedo numa Igreja gótica de há pelo menos 700 anos, eis-nos no autocarro a caminho de Gdansk, uma cidade do Norte da Polónia virada para o Báltico. O caminho é longo e a viagem durará cerca de 2h. Estamos cansados, mas ainda calmos, aproveito para pensar um pouco.

É importante falar muitas vezes com Deus para evitar a aridez espiritual. A oração ou a liturgia ou mesmo a missa podem não ser o suficiente para aquele que procura a intimidade com Deus. Razão pela qual, mesmo durante as férias (mais ainda durante estas Jornadas da Juventude, dias de espiritualidade por excelência), o cristão deve procurar reservar um momento do seu dia para fazer silêncio e um exame de consciência para interiorizar o que lhe foi dado viver para perceber o sentido profundo destas experiências e isto apesar das diversas tentações que o podem desviar destes momentos privilegiados.

As magníficas paisagens deste país, que tanto sofreu com sucessivas ocupações, favorecem este exercício, este movimento da alma para Deus e para o que de mais profundo há nela.

Depois de duas horas de trajeto, eis-nos a caminho do Centro Europeu de Solidariedade, um museu consagrado à história da libertação da Polónia da tirania do regime comunista durante os anos 80. Fiquei especialmente impressionado ao ver como a solidariedade assim como a perseverança são importantes para a realização dos grandes e nobres projectos do homem, que sofrendo a opressão, a injustiça e diferentes formas de tirania que sobre ele se podem abater, continua a aspirar pela liberdade e pela justiça.

“Não podemos aplaudir com uma só mão, são precisas as duas”, diz um provérbio árabe. Uma lição e um exemplo para nós, palestinos, que continuamos a sofrer a ocupação israelita, mas também o egoísmo dos nossos líderes políticos que devem aprender com o exemplo a trabalhar em conjunto e sobretudo a dialogar.

Depois de uma rápida visita ao centro da cidade, partimos para o mar Báltico. Para nós, habituados a um litoral mediterrânico, a diferença é enorme. Não há nada em comum, nem as paisagens, nem a cor da água nem a temperatura.

Voltámos à noite a Torum, muito cansados, mas felizes por este dia rico em emoções. Temos de descansar se quisermos chegar ao fim desta maravilhosa experiência. Amanhã, iremos a Varsóvia onde ficarmos quatro dias antes de nos juntarmos ao Papa e aos três milhões de jovens católicos esperados em Cracóvia.

(segue)