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Posted on 24 Dec, 2016 in Administrador, Homilias PbP, Slide

Bethlehem 2016: Homilia de Mons. Pizzaballa para a Noite de Natal

Bethlehem 2016: Homilia de Mons. Pizzaballa para a Noite de Natal

25 de Dezembro de 2016

Noite de Natal

“Eis que o Senhor está à porta” (Tiago 5,9)

O Natal é a entrada do Filho de Deus no mundo: Cristo entrou no mundo, veio para junto do Seu povo. E, frente a Ele, há muitas portas que se abrem e outras que se fecham. Neste momento, após o Jubileu da Misericórdia, podemos interpretar o Natal como a porta que Deus tem aberta para sair ao encontro do homem convidando-o a ficar em comunhão com Ele.

No Natal abre-se em primeiro lugar a porta por onde vem o Filho, Emanuel, Deus-connosco. Os céus também se abrem: desde o nascimento até ao Baptismo de Cristo, há a abertura das portas do Céu por onde os anjos saem e entram para anunciar e preparar a vinda do Espírito. Mas acima de tudo, abre o coração divino e humano do Filho: Assim ao chegar ao mundo Cristo diz: “Sacrifícios e ofertas não quiseste, mas um corpo me preparaste; de holocausto e ofertas pelo pecado não te agradaste. Então eu disse: Aqui estou, no livro está escrito a meu respeito: vim para fazer a tua vontade, oh Deus!” (Hebreus 510, 5, 7). Cristo abre de par em par as portas da sua vida dizendo: “Eu sou a porta, quem entra por mim será salvo. Entrará e sairá e encontra pastagens”. (João 19, 9). “Eu sou a porta pela qual os justos entrarão”. (Salmo 10,9).

À porta aberta de Cristo correspondem as portas abertas dos homens e das mulheres desejosos de O deixarem entrar: o coração de Maria e de José, com um “sim” sem hesitação; as portas da casa de Isabel e Zacarias; a generosa caminhada dos pastores e dos reis magos; de Simão e de Ana…

Mas há também as portas que se fecham “Ele veio a sua casa e os seus não o receberam” (João 1, 11). Estão fechados o coração de Herodes, as casas que não têm lugar para os acolher, a vida dos que estão demasiado ocupados a gerir os seus bens para a realização os seus projectos futuros, a impor as suas ideias.

Gosto muito desta imagem da porta: ela evoca, lembra, convida a que se corra o risco da liberdade que se abre e se fecha tornando possível ou impossível a paz que esperamos encontrar e que salva. O nascimento de Cristo e dos cristãos não é, na realidade, uma festa mágica ou sentimental para serem vividas, fechados nas nossas casas, na segurança individual do nosso meio familiar ou social. Não é uma alegria privada, pessoal e indiferente de uma evasão da dura realidade da vida quotidiana, como um parenteses colorido e brilhante numa vida demasiado cinzenta.

O Natal é o anúncio de uma salvação que está à espera de ser acolhida para se realizar. Como Maria depois da anunciação do anjo, como José depois do sonho celeste, como os pastores depois do cântico dos anjos, depois dos Magos depois de terem visto a estrela, também nós somos chamados a pormo-nos a caminho, a estarmos decididos a sair da nossa preguiça e das nossas desculpas para irmos a Belém, para entrarmos num novo espaço de vida e de paz, O Reino que Cristo vai iniciar. A porta está aberta, a nossa liberdade é convidada.     

Sei bem que todos nós somos vítimas de um sentimento crescente de insegurança e de desconfiança. As esperanças de paz tantas vezes frustradas, a violência dos ataques recorrentes, dos discursos tão retóricos como ineficientes incitam-nos a que nos barriquemos, a cerrarmos as nossas portas, a instalarmos serviços de vigilância e a fugir em vez de ficar e resistir com confiança e esperança.

Tememos o estrangeiro que bate à nossa porta e chega às fronteiras dos nossos países. As portas fechadas, as fronteiras defendidas mais do que serem escolhas pessoais e políticas são uma metáfora do medo que a dinâmica de violência gera inevitavelmente nos nossos tempos. Temos medo do que se passa no mundo e vemos as nossas esperanças, aqui como em muitos países do mundo, a serem desfeitas pela corrupção, pelo poder do dinheiro, pela violência sectária, pelo medo na Síria, no Iraque, na Egipto, na Jordânia. Mas na nossa Terra Santa a sede de justiça, de dignidade, de verdade e de amor verdadeiro continua a aumentar. Com efeito, continuamos a recusa e a negar o outro, a vivermos e a pensarmos como se fossemos os únicos a existir, como se não houvesse lugar senão para nós. “Não havia lugar para eles na hospedaria”. (Lucas 2,7).  

Os nossos receios determinam as nossas escolhas e as nossas orientações. Estamos cansados e desorientados por tudo o que se passa à nossa volta e no nosso caminho perdemos todo o sentido de orientação. Não encontramos nenhuma estrela que nos possa guiar.

Não se trata somente de um factor psicológico mas mais precisamente de um fenómeno existencial, uma “psicologia do inimigo” que inevitavelmente se transforma em ideologia, criando um modo de vida agressivo, uma maneira conflituosa de se dirigir aos outros que estão à nossa frente sem esperança de um futuro. Das portas das nossas casas às fronteiras dos estados tudo está fechado no medo, na desconfiança na exclusão e na guerra. Sentimo-nos todos excluídos, bloqueados, separados.

O Natal, no entanto, fala de uma alegria e de uma paz que virão se tivermos vontade de abrir as portas; se partilharmos a boa vontade de Deus que abre em vez de fechar, que dá em vez de tirar, que perdoa em vez de se vingar. Podemos passar da lógica do inimigo à logica da fraternidade, movidos por um Deus que teve fé no homem antes de nós termos confiança Nele. Se Deus não tem nenhum receio ou desprezo pelo homem (“non horruisti Virginis uterum” Vós não tivestes de vos fazerdes homem” canta um antigo hino da Igreja da Igreja) podemos nós também aprender a confiança corajosa que abre as portas do diálogo e do encontro. A salvação e a paz, o encontro e a concórdia são, com efeito, as graças a invocar junto Daquele que aclamamos, nesta noite santa, como o Príncipe da Paz. Mas estas graças tornam-se autênticas e reais se forem aceites e praticadas por mãos e corações que abrem e que escolhem adoptar uma nova mentalidade, novos comportamentos, novos projectos de uma forma corajosa e generosa, como corajoso e generoso foi Cristo quando veio partilhar a nossa vida dando-nos a Sua.

No nosso país e no mundo, onde os que falam da paz e da vida são numerosos, mas onde só poucos decidem passar o limiar do compromisso e da decisão, a Natividade renova o convite para se abrirem as portas a Cristo que se quer dar a conhecer, e ao outro. Pelos ritos e orações desta Santa Noite o Pai, em Cristo seu Filho, vem mais uma vez ao encontro do homem para lhe perguntar: onde estás? (Genesis 3, 9) e convidá-lo a entrar na casa da fraternidade.

Cruzamos a soleira? Não se trata de um slogan para surtir efeito. Trata-se de um convite feito ao homem, à sociedade, à política e à economia, aos pobres e aos poderosos deste mundo; vamos sair das nossas fortalezas, abrir a porta dos nossos juízos e dos nossos preconceitos para irmos ao encontro Daquele que nos chama. Vamos a Belém para começarmos um novo caminho ou continuarmos nos nossos palácios para conservarmos o nosso poder, para defendermos os nossos interesses sendo mesmo capazes de excluir o outro para mantermos as nossas posições? Saberemos nós dar, olhando para o Menino, uma reposta a esta sede de justiça e de dignidade, a este desejo de amor e fraternidade, à necessidade de se reencontrar, ou continuaremos a confiar nas nossas estratégias militares ou políticas que perdem fôlego?

Teremos nós a coragem de nos deixarmos levar por este Menino, pondo de lado todos os interesses partidários, para olharmos o outro como um irmão na plena liberdade de filhos de Deus, despojando-nos de toda a violência, opressão e arrogância?

A resposta não está escrita nas estrelas, mas nas nossas escolhas, livres e responsáveis. E enquanto nos viramos para Cristo Criança, e para a Porta aberta do Pai, que nada consegue fechar, a nossa confiança renova-se, a nossa esperança renasce e continuamos a cantar: Tu és a nossa esperança, não ficaremos decepcionados!

                                                                  +Pierbattista