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Posted on 30 Dec, 2016 in Administrador, Homilias PbP, Slide, Vida espiritual

Meditação de Mons. Pizzaballa para o domingo 1 de Janeiro de 2017, Solenidade de Maria Mãe de Deus

Meditação de Mons. Pizzaballa para o domingo 1 de Janeiro de 2017, Solenidade de Maria Mãe de Deus

1 de Janeiro de 2017

Maria Mãe de Deus.

Celebrámos há alguns dias o nascimento do Senhor e lembramos este acontecimento da história em que Deus se tornou nossa carne.

Hoje, continuamos a celebrar o Natal, porque este nascimento não deixa de estar presente, vivo: o Senhor continua a nascer, a crescer, a existir na vida de cada cristão e – misteriosamente na de cada homem – Mas o nascimento de Jesus em nós não é um acontecimento que se produza num instante: trata-se de um processo bastante longo, que requer tempo e paciência, e que avança cada vez mais profundamente até atingir todos os recantos da nossa vida.

O Evangelho de hoje dá-nos uma visão da vida interior da Virgem Maria, da forma como ela aprendeu, cada dia, a estar diante do mistério desta criança que lhe foi dada. Lucas diz-nos que os pastores, depois de terem visto o sinal que os anjos lhes tinha anunciado, contaram: “o que lhes foi dito desta criança” (Lucas 2,17). Todos ficam estupefactos quando ouvem este relato: eles têm diante dos olhos uma simples criança, igual a qualquer outra, que nasceu em condições ainda mais precárias do que a maioria das crianças deste mundo. E, no entanto, foi acompanhada por aparições celestes, por acontecimentos prodigiosos.

Um mistério sem precedentes, que nos ultrapassa e nos surpreende sempre e que tem em si algo de imprevisível, totalmente novo, e não imediatamente compreensível. Face à novidade do mistério, o Evangelista diz que Maria “guardou em si todas estas coisas e meditava nelas no seu coração. (Lucas 2,19).

Trata-se com certeza de uma atitude habitual de Maria na sua vida e diante de Deus: no final de um outro episódio da infância de Jesus, quando Este tinha doze anos e perdeu-se e foi depois encontrado no Templo de Jerusalém, Lucas usa a respeito de Maria uma expressão semelhante: “A sua mãe guardava para si todas estas coisas”. (Lucas 2,19).

Por duas vezes Maria não compreende o que está a acontecer. No episódio de Jerusalém o evangelista diz claramente: “Maria e José não compreendia o que Jesus lhes havia dito” (cf. Lucas 2, 50): O facto de “guardar” indica uma atitude positiva e uma actividade interior de reflexão, de questionamento é certo, mas também de uma aceitação do que se passa, mesmo não compreendendo tudo. Os pastores acorrem à gruta, contemplam com espanto e dão o seu testemunho: eles sabem, eles viram, eles contam. Maria está silenciosa. No entanto a sua relação com esta criança que é o seu Senhor e a sua carne que é a Vida que ela deu à luz, durou nove meses e foi já pontuada por inúmeras provações. Mas ela não consegue ainda fazer a “história” do que lhe aconteceu. Ela guarda no seu coração a exaltação da Anunciação, e da alegria que brotou do seu coração quando encontrou Isabel, o momento único em que ela sentiu o Menino mexer-se no seu ventre. E o anúncio do recenciamento, quando foi necessário deixar o domicílio familiar e enfrentar uma longa viagem até chegar a Belém, onde não havia lugar para eles e dar à luz numa gruta: quantos “porquês” devem ter surgido ao coração e ao espírito desta jovem de Nazaré. “Maria no entanto guardava tudo isto no seu coração e meditava”. Guardar quer dizer mais do que conservar: é deixar ao que lhe aconteceu tempo para se revelar, fazer crescer a compreensão do coração escutando o silêncio de Deus”.

Maria aceita deixar viver nela, construir o seu lugar, acolher a vida que chega sem a possuir. Maria deixa este filho ser Filho de Deus, deixa a vida ser diferente do que queria e esperava. Ela tem confiança continuando no entanto numa espera consciente de que este mistério dê os seus frutos, e que seja um fruto de salvação.

Guardar significa lembrar-se, sem rejeitar seja o que for do que se passa, sem pensar que algo possa não fazer sentido.

Guardar significa que a fé não é questão de um momento, que pode ser heroica, mas que é uma atitude normal e quotidiana dos que acreditam sempre que a vida é habitada por um outro. Que a vida não é somente o que os nossos olhos alcançam.

Guardamos o que é muito maior do que o nosso próprio coração e que no momento não compreendemos: guardamos também o que é frágil, o que tem necessidade dos nossos cuidados e atenção. Trata-se igualmente da presença de Jesus: não se trata de uma posse certa nem de uma resposta evidente, mas de uma questão, de uma semente que cresce lentamente até atingir o seu pleno potencial. E é por isso que ela necessita de muitos cuidados. Guarda-se o que é muito precioso.

Frágil como uma criança, precioso como um filho.

Face a este mistério, há duas atitudes diferentes: pode negar-se (será o caso de Herodes, que, assustado com este mistério, tentará matar Jesus); pode-se ignorá-lo (como os chefes do povo e os grandes deste mundo, que depois do anúncio do menino nascido em Belém não se põem a caminho para o procurar); pode-se tentar compreendê-lo, explicá-lo e ligá-lo ao que já sabe, a um quadro reconfortantes (o que farão mais tarde os fariseus e os chefes dos povos); ou pode-se guardá-lo.

Uma imagem destas diferentes formas de acolher o mistério, que Jesus contará mais tarde, será a parábola da semente e da terra (Lucas 8, 4 a 15). Nela descobriremos que a boa terra é boa não o é tanto por ser melhor do que as outras, mas porque é capaz de guardar. É a perseverança quotidiana e humilde que permite à semente morrer e nascer e dar os seus frutos.

Um meio seguro para guardar e devolver. Guardar não significa esconder (como o talento escondido debaixo da terra); também não significa agarrar qualquer coisa. Para guardar, paradoxalmente, é preciso dar e partilhar. É somente assim que podemos, no espírito de dom, penetrar  por fim no mistério e compreendê-lo, não com um esforço puramente intelectual, mas por uma vida que se torna, ela própria mistério.

O ano que se abre diante de nós é sem dúvida portador de um mistério.

E nós temos de aprender a guardá-lo como Maria fez com o seu Filho, esperando que cada acontecimento se revele e se realize para nós no mistério da vida e da salvação que ela traz.

 

                                                                   + Pierbattista Pizzaballa.

 

Traduzido do francês. Texto original em italiano.